Caia na real: nem crianças ensanguentadas nos comovem mais

Não somos mais civilizados. Não, claro que não. Somos brutos e bárbaros, isso sim. Nossa humanidade está cada vez mais questionável. Para conseguirmos o que queremos, ultrapassamos todos os limites do bom senso: não olhamos a criança descalça que pede o que comer na rua, pois temos pressa ou achamos que ela vai se drogar; não cedemos nosso lugar no ônibus nem mesmo para os doentes porque estamos cansados demais para ficarmos em pé; queremos distância de gente velha caindo aos pedaços porque não temos tempo para termos paciência com esse povo…

Nosso carro vale muito mais que a vida de qualquer pessoa. Se não houver lei para tirar ainda mais o nosso tão idolatrado dinheiro, meu Deus, as coisas estariam ainda piores. Dias desses, perto de minha casa, havia placas pedindo que os motoristas reduzissem a velocidade ao passarem perto da escola, principalmente na hora da entrada e saída de crianças. Não funcionou. Vi muitas crianças quase sendo atropeladas por carros em altíssima velocidade. Quando colocaram travessia elevada e câmeras para multar os infratores, aí sim as coisas funcionaram e os motoristas, tão humanos, começaram a respeitar a vida das criancinhas da escola. Acho que não preciso ser mais clara, mas serei: eles estavam preocupados, na verdade, era com o dinheiro deles sendo desperdiçados em multas. Eles também se preocuparam demais da conta em estragar a lataria do carro deles ao passarem correndo pela travessia elevada. Quanto a estragarem a vida das crianças com possíveis acidentes? Não, eles não se preocuparam com isso.

Quantos absurdos que nós, seres humanos, cometemos no dia a dia e nem nos damos conta. Quanto desamor espalhamos, quanto ódio, quanta impaciência. Como tem sido ridícula nossa vida.

Sensibilidade, altruísmo e empatia são conceitos vistos apenas em dicionário. Nós, seres humanos fajutos, não temos nem a flácida ideia do que essas palavras realmente significam, enquanto que os que as conhecem afirmam que não têm a mínima energia para aplicá-las em seu cotidiano já tão cheio de tarefas.

Li recentemente uma reportagem simplista em que trazia mais uma vez a foto de uma criança morta. Essa matéria dizia que “foto de criança morta comovia o mundo inteiro”. Quem dera. Meu Deus, quanta ilusão. Quero de verdade que o mundo se sensilize ao ver um bebê de 10 meses já sem vida e com o rostinho virado na areia, tudo porque teve a má sorte de nascer na etnia Rohingya. “Seres humanos” que desejam uma “limpeza étnica” no mundo metralharam sua família e queimaram vivos seus avós que não conseguiram fugir.

Fatos assim nos assustam? Posso até me esforçar muito para acreditar que sim, mas fica somente nisso: no susto. Não somos capazes de mover uma palha para mudar essa realidade, pois, afinal, estamos ocupados demais olhando para dentro do nosso próprio e mesquinho mundinho. Será que é porque esse bebê mora do outro lado do globo terrestre? Não, isso não é nem de longe motivo justo. Além disso, muitas tragédias acontecem em nosso solo e, de igual modo, não estamos nem aí para a dor de tantas pessoas desoladas.

Exemplo disso é o do camelô assassinado por dois jovens no metrô de São Paulo. Ali estavam muitas pessoas apenas olhando tudo acontecendo. Especialistas disseram que a inércia da população se deu porque ela também sentiu medo dos dois marginais pisando sem piedade na cabeça do homem caído.  Desculpe-me, prezados especialistas, mas isso não tem o menor cabimento. Eram apenas dois “seres humanos” desarmados chutando a cabeça do camelô. Em contrapartida, havia muitas outras pessoas para contê-los se assim desejassem. Muito diferente disso, esses outros seres humanos inertes também viram sem esboçarem nenhuma reação de repulsa um “ser humano” usando muleta roubando a carteira do camelô que já demonstrava estar morto.

A verdade cruel é que só somos capazes de fazer alguma coisa quando a tragédia acontece conosco, mas queremos mesmo é que os demais se matem. Ainda somos humanos? Se você me disser que sim, vou substituir a ideia de que nossa diferença em relação aos demais seres vivos é que somos seres pensantes pela ideia de que, na verdade, são esses comportamentos repugnantes é que nos diferencia de fato.

Por Erika de Souza Bueno
Blog Olhar de Mulher
https://olhardemulher.wordpress.com
E-mail: consultoria.erikabueno@gmail.com

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